A história de amor submisso entre Anastasia Steele e Christian Grey deixou milhões de leitoras apaixonadas pelo milionário protagonista. Mas, francamente, a trilogia “Cinquenta tons” está bem longe de ser um primor da literatura mundial. Diálogos pobres, descrições cafonas e uma boa dose de machismo. Isso não deve fazer muito bem a ninguém mesmo.
E a ciência confirma: realmente não faz bem – mas, ok, isso nada tem a ver com a qualidade literária do romance. A começar pela personagem
Anastasia. Um
estudo liderado por
Amy Bonomie outros pesquisadores da Universidade do Estado de Michigan analisou o relacionamento dos dois e comparou com os padrões que o
Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), um braço do órgão de saúde do governo americano, considera como
violência interpessoal. E, segundo eles, o namoro é “
emocionalmente abusivo, caracterizado por
perseguição,
intimidação e
isolamento”. As consequências disso? Anastasia sofre de
estresse,
distúrbio de identidade e sensação de
impotência.
A pesquisadora Amy Bonomi ainda extrapolou o mundo da ficção e quis saber se esse romance doentio influencia as leitoras. Ela e sua equipe entrevistaram 655 mulheres, entre 18 e 24 anos, para saber sobre os hábitos alimentares, vida sexual e consumo de álcool. Entre elas, 33% haviam lido pelo menos um livro da trilogia.
E, bem, as leitoras do best-seller costumavam relatar mais envolvimento com namorados violentos, distúrbios alimentares e se embriagavam com mais frequência. Elas também tendiam a ter mais parceiros sexuais do que as outras.
Pode até ser que a culpa não seja do romance em si. Talvez esse seja só o tipo de público que se sinta mais atraído pelo enredo… Mas é evidente que um best-seller mundial acaba influenciando o comportamento de um monte de gente pelo mundo.
“Representações problemáticas da
violência contra a mulher na cultura popular, tanto em filmes, romances, música ou pornografia, criam uma narrativa social que normaliza esses riscos e o comportamento das mulheres”, diz o
estudo. “A pesquisa mostra uma forte relação entre a
saúde das mulheres e o consumo do livro. Entre as que já experimentam algum comportamento de saúde adverso (ex:
distúrbio alimentar), ler
50 tons pode reafirmar essas experiências e agravar o trauma. Já as mulheres saudáveis podem passar a
achar normal esse tipo de comportamento”, conclui.